terça-feira, 18 de janeiro de 2011

"D. Dinis"







Na noite escreve um seu Cantar de Amigo
O plantador de naus a haver
E ouve um silêncio múrmuro consigo:
É o rumor dos pinhais que, como um trigo
De Império, ondulam sem se poder ver

Arroio, esse cantar, jovem e puro,
Busca o Oceano por achar;
E a fala dos pinhais, marulho obscuro,
É o som presente desse mar futuro,
É a voz da terra ansiando pelo mar.

D. Dinis foi o nosso rei poeta que compôs inúmeras Cantigas de Amigo, poesias da Idade Média.
O ambiente de mistério é criado sobretudo na primeira estrofe: “um silêncio múrmuro” que só ao rei é dado ouvir “ o rumor dos pinhais (…) sem se poder ver”. Só o futuro os revelará como “ trigo/de império”; na segunda estrofe refere-se, ainda, “a fala dos pinhais ” que é um “marulho obscuro”. 
D. Dinis é “o plantador de naus a haver”. A metáfora remete para os pinheiros plantados por D. Dinis, que são já virtualmente as naus das descobertas – o futuro adivinhado. O rei aparece assim como aquele que criou as condições para os descobrimentos, mandando plantar as árvores de cuja madeira se construíram as naus.
Nos versos 6 e 7 o cantar jovem e puro é apresentado como um regato (arroio) que corre em direcção ao oceano. Também estes versos encerram a ideia de que neste passado se adivinha já o futuro.

"Prece"

Em termos formais, o poema é constituído por três estrofes, de quatro versos (quadras). Quanto ao metro, os versos são irregulares. O sujeito poético inicia o poema com uma apóstrofe ao Senhor, referindo-se a um tempo de grandeza anterior. A esse período sobreveio a noite e a pequenez de espírito (a alma é vil), desprezando a grandeza do Passado. A expressão “a noite veio” implica a existência prévia do dia, e se o dia foi o tempo de grandeza, a noite será o tempo de abatimento, tristeza e destruição. No passado situam-se as tempestades (tanta foi a tormenta) e o sonho (a vontade). Note-se a frase exclamativa, que confere ao discurso grande emotividade. As dificuldades foram muitas mas a atitude assumida pelo povo (nós) foi de vontade para as ultrapassar. O desalento é o sentimento assumido pelo sujeito poético e que deve ser também assumido pelos outros. Resta o silêncio e a saudade, após a conquista do mar.
 Estamos portanto diante de um Portugal marcado pela indolência (pelo silêncio hostil), pelo apego às coisas materiais, sem capacidade de sonhar (a alma é vil), em contraste com um passado de tormenta e vontade.

A segunda estrofe, introduzida pela conjunção adversativa
mas, opõe-se à primeira que começa pela afirmação do desalento com a situação presente, em que apenas restam “o mar universal e a saudade”. A mão do vento (notem-se a metáfora e a personificação) pode erguer novamente a chama, porque enquanto há vida (ainda não é finda) existem a esperança e o sonho, que podem ainda ganhar força. Tal como o fogo quase extinto pode ser reavivado por um sopro, a Alma portuguesa pode ainda levantar-se. A repetição de ainda reforça a ideia de que nada está perdido e de que com uma atitude diferente tudo se pode alterar. Note-se a utilização do adjectivo morto, que terá o sentido conotativo de ocultar uma vida renovada como a Fénix, que surge das cinzas.
Na terceira estrofe, em consonância com o título, o sujeito poético, em tom de súplica, pede que um “sopro” divino ajude a atear a “chama do esforço”, ainda que se tenha de pagar com “desgraça” ou suportar o peso da “ânsia”. Os dois últimos versos recordam-nos os do poema
Infante: “ Cumpriu-se o mar, e o Império se desfez! Senhor, falta cumprir-se Portugal!”.

 A Distância é o caminho para o conhecimento: no último verso reforça-se a ideia de que é necessário procurar a identidade e o prestígio nacionais perdidos. Estes dois versos traduzem a crença num futuro. Tendo-se cumprido o mar, é necessário conquistar novamente a Distância para que se cumpra Portugal.

"Nevoeiro"


 
O poema “Nevoeiro” é o último poema da Mensagem. Enquadra-se na terceira parte do livro, dedicada ao Encoberto.

O título do poema vem no seguimento dos outros poemas da secção “Os Tempos”. Ao longo desta série de cinco poemas Pessoa descreve, metaforicamente, desde um passado remoto a um futuro ainda sem data, a evolução de Portugal. Como bem se compreende, o titulo deste último poema pretende comunicar um misto de indefinição e de segredo. “Nevoeiro” é uma substância mutável, que esconde como um véu uma outra realidade, que a surgir, apenas surge quando afastado esse véu.


Pessoa considera Portugal num estado letárgico, indefinido, como um manto de nevoeiro. Por isso ele diz “Nem rei nem lei, nem paz nem guerra, / Define com perfil e ser / Este fulgor baço da terra / Que é Portugal a entristecer –“. É a tal “crise de identidade” que refere na sua pergunta. É uma crise tão profunda, tão sedimentada, que não haverá nenhuma mudança pelo governo dos homens. Nem a guerra – mudança das mudanças – poderá demover Portugal do seu triste estado.


Como um “brilho sem luz”, Portugal vive, mas é uma vida triste e inconsequente, sem destino.


A segunda estrofe confirma o que foi dito na primeira. Depois de desenhar o perfil psicológico macroscópico, Pessoa passa ao nível microscópico – das almas individuais. São elas que não sabem o que querem, nem tão pouco se conhecem, inevitavelmente caindo num decadente vazio moral. Como o país, os seus habitantes partilham do mesmo destino, são porções ínfimas que constituem o “Nevoeiro” que se vê mais do alto.


A expressão entre parênteses é, na minha opinião, o momento de viragem do poema. Embora ele seja em essência triste, neste momento começa a exortação à mudança. Isto porque a descrição que Pessoa faz é positiva, mesmo que use de negatividade para enfatizar o seu discurso. Por isso este parênteses exactamente no meio da segunda estrofe – como uma quebra da negatividade e começo da exortação à mudança, a melhores tempos. Usa-o para nos fazer acreditar na mudança, mesmo que paradoxal ela é possível. Ele dirá como.
Esse como é a profecia. Não é só Portugal que é nevoeiro, tudo é nevoeiro – diz-nos o poeta. O mesmo é dizer que em tudo há mistério e possibilidade de mudança. Se a indefinição é má, é positiva do ponto de vista de ser maleável, fonte de todas as mudanças futuras.

Nesta perspectiva o passado não é mais do que uma ponte para o futuro. Os grandes triunfos no mar, as conquistas materiais, tiveram o seu tempo e existiram para serem passageiras, foram uma lição de humildade. A recompensa não é da terra, é dos céus e deve nos céus ser procurada. Senão as conquistas não teriam feito do país “Nevoeiro”.


Poema velado, de grande intensidade dramática – embora sub-reptícia, “Nevoeiro” apresenta os seguintes recursos estilísticos relevantes: uso de uma anáfora e de uma antítese, catorze versos octossilábicos distribuídos por uma sextilha uma séptima e um verso isolado de três sílabas,  uso de um sistema de redundantes negativas que enfatizam o estado de nevoeiro do país, uso do verso solto que leva a uma epifania final, exortação.


Os Lusíadas terminam de forma muito diferente da Mensagem e simultaneamente de forma similar. Camões exorta um rei vivo às conquistas ainda possíveis, embora se adivinha já o fim do Império. Pessoa já não tem Império em que ter esperança e a sua exortação é necessariamente interior, espiritual. O que é parecido em ambos é a esperança positiva na mudança – não há um fatalismo triste, como se costuma julgar. Ambos esperam a mudança para melhor, acreditam num futuro melhor. A “apagada e vil tristeza” de Camões, o “fulgor baço da terra” de Pessoa, são maneiras semelhantes de caracterizar o presente do país – agora como então. Ambos estão desapontados com a realidade e querem a mudança – um pela guerra, o outro pela irmandade. Aí reside talvez a principal diferença entre ambos.



segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Pessoa ortónimo

           
                Pessoa, quadro de Almada Negreiros                               

 Características temáticas:

A teoria do fingimento;
A intelectualização do sentir;
A obsessão de auto-análise;
O sofrimento resultante da dor de pensar;
A distância entre sonho e realidade;
A incapacidade de fruir a plenitude da vida;
A evocação da infância como símbolo de uma felicidade mítica, imaginária e perdida;
A fragmentação do eu;
O tédio, a angústia existencial, a náusea, a solidão interior, a melancolia.
Características formais:

Linguagem simples e sóbria, a nível lexical e sintáctico;
Reminiscências da lírica tradicional popular – repetições, rima cruzada e emparelhada, versos curtos , predominância da Quadra;
Suavidade rítmica e musical.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Mensagem


Mensagem
A Mensagem, cujas poesias foram escritas entre 1913 e 1934 (data da sua publicação) é, sem dúvida, a obra-prima onde Pessoa imprimiu o seu ideal patriótico, sebastianista e regenerador. É um poema nacional, uma versão moderna, espiritualista e profética de Os Lusíadas.
   A Mensagem poderá ser vista com uma epopeia, porque parte dum núcleo histórico. Aqui, a acção dos heróis só adquire pleno significado dentro duma referência mitológica. Aqui serão só eleitos, terão só direito à imortalidade, aqueles homens e feitos que manifestam em si esses mitos significativos. Os antepassados, os fundadores que pela sua acção criaram a pátria e ergueram a personalidade; as Mães cantadas como “Antigo seio vigilante”, ou “humano ventre do império”; os heróis navegantes, aqueles que percorreram o mar em busca do caminho da imortalidade, cumprindo um dever individual e pátrio (realização terrestre duma missão transcendente); e, finalmente, depois dessa missão cumprida, dessa realização, os profetas, as vozes que anunciam já aquele que viria regenerar essa pátria moribunda, abrindo-lhe novo ciclo de vida, uma nova era – o Encoberto.
   É uma obra épico – lírica pois, como uma epopeia, parte de um núcleo histórico (heróis e acontecimentos da História de Portugal), mas apresenta uma dimensão subjectiva introspectiva, de contemplação interior, característica própria do lirismo.

A estrutura da obra
A estrutura da Mensagem transfigura e repete a história duma pátria como o mito dum nascimento, vida e morte dum mundo, morte que será seguida dum renascimento. O poeta desenvolve a obra como uma ideia completa, de sentido cósmico, dando-lhe a forma simbólica tripartida: Brasão, Mar Português e O Encoberto. Esta forma tripartida poder-se-á traduzir como: os fundadores, ou o nascimento; a realização, ou a vida; o fim das energias latentes, ou a morte; mas essa conterá já em si, como gérmen, a próxima ressurreição, o novo ciclo que se anuncia – o Quinto Império. Assim, a terceira parte é toda ela cheia de avisos, pressentimentos, forças latentes prestes a virem à luz: depois da Noite e da Tormenta, vêm a Calma e a Antemanhã: estes são os Tempos. E aí sempre perpassará, embora em modelações diversas, a nota da esperança: D. Sebastião, O Desejado, O Encoberto… É dessa forma, o mítico caos, a noite, o abismo, donde surgirá o novo mundo, “Que jaz no abismo sob o mar que se segue”.
                                                            Sebastianismo
  A Mensagem apresenta um carácter profético, visionário, pois antevê um império futuro, não terreno, e ansiar por ele é perseguir o sonho, a quimera, a febre de além, a sede de Absoluto, a ânsia do impossível, a loucura. D. Sebastião é o mais importante símbolo da obra que, no conjunto dos seus poemas, se alicerça, num sebastianismo messiânico e profético.
                                               Quinto Império: império espiritual
   É esta a mensagem de Pessoa: a Portugal, nação construtora do Império no passado, cabe construir o Império do futuro, o Quinto Império. E enquanto o Império Português, edificado pelos heróis da Fundação da nacionalidade e dos Descobrimentos é terreno, material, o Quinto Império é espiritual: “E a nossa grande raça partirá em busca de uma Índia nova, que não existe no espaço, em naus que são construídas daquilo que os sonhos são feitos…  A Mensagem contém, pois, um apelo futuro.
                                                A estrutura
       A Mensagem está dividida em três partes, que correspondem a três momentos do Império Português: nascimento, realização e morte. Mas essa morte não é definitiva, pois pressupõe um renascimento que será o novo império, futuro e espiritual.
1. Nascimento – 1ª Parte “Brasão”
Fundação da nacionalidade, desfile de heróis lendários ou históricos, desde Ulisses a D. Afonso Henriques, D. Dinis ou D. Sebastião.
2. Realização – 2ª Parte “Mar Português”
Poemas inspirados na ânsia do Desconhecido e no esforço heróico da luta com o mar. Apogeu da acção portuguesa dos Descobrimentos, em poemas como “O Infante”, “O Mostrengo”, “Mar Português”.

3. Morte – 3ª Parte “O Encoberto”
Morte das energias de Portugal simbolizada no “nevoeiro”; afirmação do sebastianismo representado na figura do “Encoberto”; apelo e ânsia messiânica da construção do Quinto Império.